Exposição Ocupacional ao Frio e Estresse Térmico por Frio


 A exposição ocupacional ao frio constitui um fator de risco ambiental capaz de comprometer o equilíbrio térmico do organismo humano, produzindo respostas fisiológicas destinadas à manutenção da temperatura corporal interna.

 

O estresse térmico por frio pode manifestar-se mesmo em temperaturas apenas ligeiramente inferiores à zona de conforto térmico, especialmente em atividades sedentárias, nas quais a produção metabólica de calor é reduzida.

 

Embora a redução da temperatura ambiente aumente progressivamente o risco de adoecimento e acidentes relacionados ao frio, a resposta individual depende de diversos fatores, tais como capacidade de termorregulação, condição física, vestimentas utilizadas, intensidade do trabalho executado e características ambientais.

 

Dessa forma, a compreensão dos mecanismos de troca térmica entre o corpo humano e o ambiente constitui elemento fundamental para a avaliação técnica do risco ocupacional decorrente da exposição ao frio.

 

2. Caracterização da Exposição Ocupacional ao Frio

 

A exposição profissional ao frio pode ocorrer em ambientes naturais ou artificiais, estando presente em diversos segmentos produtivos.

 

Os principais agravos à saúde decorrentes dessa exposição incluem:

  • Hipotermia;
  • Lesões por congelamento de tecidos (frostbite);
  • Redução da destreza manual;
  • Diminuição da capacidade de concentração e atenção;
  • Transtornos musculoesqueléticos;
  • Aumento da probabilidade de acidentes de trabalho.

 

A caracterização de um ambiente frio não deve basear-se exclusivamente na temperatura do ar. A percepção térmica e os efeitos fisiológicos são influenciados por fatores adicionais, dentre os quais destacam-se:

  • Velocidade do ar (efeito do vento);
  • Umidade relativa do ambiente;
  • Intensidade do esforço físico realizado;
  • Tempo de exposição;
  • Tipo e eficiência das vestimentas de proteção.

 

Em determinadas condições, trabalhadores podem apresentar desconforto térmico em temperaturas inferiores a 15°C.

 

Contudo, temperaturas inferiores a 5°C representam situação de risco significativo, especialmente quando associadas à exposição prolongada ou a temperaturas negativas, nas quais o risco de lesões pelo frio torna-se imediato.

 

3. Situações de Trabalho com Potencial Exposição ao Frio

 

3.1 Trabalhos em Ambientes Internos

A exposição ao frio em ambientes fechados é comum em atividades relacionadas a processos industriais, conservação de produtos e manutenção de sistemas de refrigeração.

 

Destacam-se:

  • Trabalhadores da indústria alimentícia;
  • Operadores de câmaras frigoríficas;
  • Profissionais de embalagem, separação e preparação de produtos refrigerados;
  • Técnicos de instalação e manutenção de sistemas de refrigeração e climatização;
  • Trabalhadores de vigilância em cabines sem aquecimento;
  • Profissionais de cozinhas industriais, hospitais e estabelecimentos hoteleiros.

 

3.2 Trabalhos em Ambientes Externos

 

Diversas atividades realizadas ao ar livre submetem os trabalhadores à ação direta de baixas temperaturas e condições climáticas adversas, incluindo:

  • Trabalhadores do setor de transporte;
  • Agricultores;
  • Equipes de manutenção rodoviária;
  • Trabalhadores de conservação de estradas;
  • Equipes de manutenção de linhas elétricas;
  • Profissionais de manutenção industrial;
  • Vigilantes e agentes de segurança patrimonial;
  • Trabalhadores de pistas aeroportuárias.

 

3.3 Trabalhos em Altitude

 

A exposição ao frio tende a aumentar em regiões de elevada altitude devido à redução da temperatura ambiente e ao aumento da ação dos ventos.

 

Nessa condição enquadram-se:

  • Operadores e mantenedores de teleféricos;
  • Trabalhadores de estações de esqui;
  • Guias de montanha;
  • Trabalhadores da construção civil em áreas elevadas;
  • Agentes aduaneiros;
  • Equipes de resgate;
  • Operadores de estações meteorológicas.

 

3.4 Trabalhos em Água Fria ou em Contato com Água Fria

 

As atividades desenvolvidas em ambientes aquáticos apresentam risco elevado devido à elevada capacidade da água em remover calor do organismo.

 

Entre os profissionais expostos destacam-se:

  • Mergulhadores profissionais;
  • Técnicos de inspeção subaquática;
  • Equipes de salvamento e resgate;
  • Militares;
  • Pescadores;
  • Trabalhadores de plataformas marítimas.

 

Sob o ponto de vista fisiológico, a perda de calor na água pode ser aproximadamente 25 vezes superior à observada no ar para uma mesma temperatura. Em situações de imersão acidental, o tempo de sobrevivência pode ser drasticamente reduzido em função da rápida instalação da hipotermia.

 

4. Conceito de Estresse Térmico por Frio

 

O estresse térmico por frio corresponde à carga térmica negativa imposta ao organismo, caracterizada pela perda excessiva de calor para o ambiente.

 

Tal condição resulta da interação entre fatores ambientais e individuais, incluindo:

  • Temperatura do ar;
  • Velocidade do ar;
  • Umidade;
  • Tipo de vestimenta;
  • Intensidade da atividade física;
  • Tempo de exposição.

 

Quando a perda de calor excede a capacidade do organismo de produzir e conservar energia térmica, mecanismos fisiológicos compensatórios são ativados para preservar a temperatura interna corporal.

 

5. Sobrecarga Fisiológica Decorrente da Exposição ao Frio

 

A sobrecarga fisiológica representa a resposta do organismo humano à ação dos agentes térmicos frios e está diretamente relacionada à intensidade da exposição.

 

5.1 Sobrecarga Fisiológica Baixa

 

Nessa condição, o trabalhador encontra-se em equilíbrio térmico, mantendo a temperatura corporal sem necessidade de respostas fisiológicas significativas.

 

As características principais incluem:

  • Estado de neutralidade térmica;
  • Sensação subjetiva de conforto;
  • Ausência de estresse fisiológico relevante;
  • Manutenção normal das funções corporais.

 

5.2 Sobrecarga Fisiológica Elevada

 

Ocorre quando o organismo não consegue manter o equilíbrio térmico de forma passiva e necessita ativar mecanismos de defesa para reduzir a perda de calor.

 

Nessas circunstâncias observam-se:

  • Resfriamento progressivo da pele e das extremidades;
  • Vasoconstrição periférica intensa;
  • Sensação subjetiva de frio após aproximadamente 20 a 40 minutos de exposição;
  • Redução da destreza manual;
  • Maior fadiga física;
  • Potencial comprometimento da segurança operacional.

 

Em níveis mais severos de exposição, os mecanismos compensatórios tornam-se insuficientes, podendo ocorrer hipotermia e outras lesões relacionadas ao frio, exigindo a adoção de medidas preventivas de engenharia, administrativas e de proteção individual.

 

Conclusão Técnica

Sob a perspectiva da Engenharia de Segurança do Trabalho, a exposição ocupacional ao frio deve ser avaliada de forma integrada, considerando não apenas a temperatura ambiente, mas também fatores climáticos, organizacionais e individuais que influenciam o balanço térmico do trabalhador.

 

A correta identificação das fontes de exposição e dos mecanismos fisiológicos envolvidos é essencial para a implementação de medidas de controle capazes de preservar a saúde, a segurança e a capacidade laboral dos trabalhadores expostos a ambientes frios.

 

Gerenciamento de Riscos na Indústria Siderúrgica (Aciaria)

 

 1. Cenário Operacional e Contexto de Risco

A indústria do aço é caracterizada por um processo de alta severidade, movimentando grandes volumes de materiais por meio de equipamentos de grande porte e alta complexidade. Para mitigar o potencial implacável desse ambiente, a Engenharia de Segurança adota uma abordagem integrada. Essa gestão combina engenharia de manutenção, procedimentos operacionais padrão (POPs), capacitação e treinamento laboral, além da especificação rigorosa de Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC) e Individual (EPI).

2. Riscos Críticos e Medidas de Controle

A. Riscos Térmicos e Químicos (Metal Fundido e Escória)

O risco de queimaduras graves por projeção de metal fundido ou escória está presente desde a operação dos fornos até o vazamento e transporte em panelas e cadinhos.

  • Perigo de Explosão por Umidade: A presença de água retida no metal ou a introdução de ferramentas úmidas gera uma reação termofísica violenta (vaporização instantânea), arremessando material incandescente a grandes distâncias.
  • Controle: Controle rígido de umidade nas matérias-primas e ferramentas (pré-aquecimento), barreiras de proteção coletiva e uso de EPIs aluminizados de alta performance.

B. Riscos de Movimentação de Cargas (Pontes Rolantes)

A movimentação aérea de cargas pesadas por pontes rolantes expõe a planta ao risco de queda de materiais e acidentes por movimentação inesperada.

  • Controle: Implementação de planos de amarração de carga (rigging), uso de sinalização manual padronizada e comunicação via rádio entre sinaleiro e operador. Programas rigorosos de inspeção preditiva e preventiva em cabos, eslingas, manilhas e ganchos são obrigatórios. Além disso, os acessos às pontes e caminhos de rolamento devem dispor de meios seguros (guarda-corpos e linhas de vida) para prevenir quedas de altura.

C. Riscos de Tráfego e Logística (Vias Férreas e Tratores Industriais)

A coexistência de pedestres, veículos industriais (grandes tratores) e equipamentos de via fixa (trens e vagões) gera alto risco de atropelamento e esmagamento.

  • Controle: Segregação física entre vias de pedestres e veículos, manutenção de distâncias de segurança e proibição de arrancadas bruscas. Nas operações ferroviárias, o foco está na comunicação clara e procedimentos de Lockout/Tagout (LOTO) durante desvios e acoplamentos para evitar o aprisionamento de trabalhadores entre vagões.

3. Riscos de Processo e Operações de Apoio

A. Housekeeping (Ordem e Limpeza)

A desorganização e o derramamento de fluidos são causas primárias de acidentes de trabalho nas aciarias.

  • Perigo: Acúmulo de insumos causa tropeços; vazamentos de grandes volumes de graxas, óleos e lubrificantes geram superfícies escorregadias com alto potencial de quedas no mesmo nível.
  • Controle: Programas de Housekeeping contínuos (como o 5S) e planos de contenção imediata de vazamentos.

B. Riscos Ergonômicos e Ferramentas Manuais

Apesar do alto índice de automação e mecanização do processo siderúrgico, atividades de intervenção manual ainda geram sobrecarga física e riscos de lesões. O desgaste acelerado das ferramentas manuais pelo uso severo potencializa a ocorrência de acidentes.

  • Controle: Análise Ergonômica do Trabalho (AET), pausas planejadas e programas de inspeção e descarte imediato de ferramentas deterioradas.

C. Riscos Mecânicos (Manipulação de Materiais e Acabamento)

Nas etapas de movimentação de sucata, acabamento e expedição, o contato com rebarbas de aço, motores expostos e fitas metálicas causa lesões por corte, perfuração ou laceração.

  • Controle: Proteção de partes móveis de máquinas (enquadramento à NR-12) e fornecimento de EPIs específicos, como mangotes e luvas com alta resistência a corte.

D. Riscos Oculares (Projeção de Partículas e Radiação)

As atividades de moagem, queima, soldagem e manuseio de matérias-primas geram intensa projeção de corpos estranhos (partículas, poeiras e fagulhas) e radiação não ionizante.

  • Controle: Programas específicos de Proteção Ocular, com uso obrigatório de óculos de segurança com proteção lateral ou protetores faciais adequados à atividade.

4. Sustentabilidade do Sistema de Segurança

Para que todas as medidas acima funcionem, a Engenharia de Segurança apoia-se em dois pilares finais:

  • Manutenção Preventiva e Preditiva Programada: Essencial para garantir que os sistemas de exaustão, sensores, intertravamentos e proteções coletivas de máquinas estejam operando com 100% de eficiência, evitando falhas que resultem em acidentes.
  • Cultura de Segurança e Disciplina Operacional: Devido às dimensões, velocidade e complexidade das máquinas da aciaria, o cumprimento estrito das normas de segurança e dos procedimentos operacionais é a última e mais importante barreira de defesa do trabalhador.

 

PORTARIA MTE Nº 836 DE 13 DE MAIO DE 2026

 


DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO

Publicado em: 15/05/2026 | Edição: 90 | Seção: 1 | Página: 179 órgão: Ministério do Trabalho e Emprego/Gabinete do Ministro

PORTARIA MTE Nº 836, DE 13 DE MAIO DE 2026

Altera a redação da alínea "d" do item 18.12.1, inclui os subitens

18.9.1.1 e 18.12.5 e inclui conceito no glossário da Norma Regulamentadora n o 18 - Condições de Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção, aprovada pela Portaria SEPRT n o 3.733, de 10 de fevereiro de 2020.

O MINISTRO DE ESTADO DO TRABALHO E EMPREGO, no uso da atribuição que lhe confere o inciso II do parágrafo único do art. 87 da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. 46, caput, inciso VI, da Lei n o 14.600, de 19 dejunho de 2023, no art. 10 , caput, inciso VI, Anexo l, do Decreto n o 12.764, de 28 de novembro de 2025, e no Processo n o 19966.100043/2020-66, resolve:

Art. 10 Alterar a redação da alínea "d" do item 18.12.1 da Norma Regulamentadora n o 18 (NR-18) Condições de Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção, aprovada pela Portaria SEPRT n o 3.733, de 10 de fevereiro de 2020, que passa a vigorar com a seguinte redação:

"d) possuir sistema de guarda corpo e rodapé em todo o perímetro, conforme subitem 18.9.4.2 desta NR, com exceção do lado da face de trabalho;"

Art. 2 0 Inserir o subitem 18.9.1.1 na Norma Regulamentadora n o 18 (NR-18) - Condições de Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção, com a seguinte redação:

"18.9.1.1 Em todo perímetro da construção de edifícios é obrigatória a instalação do sistema de proteção contra quedas de materiais, compatível com a carga à qual será submetido, devendo ser projetado por profissional legalmente habilitado e retirado somente quando a execução dos serviços acima estiver concluída ou constatada a ausência de riscos de queda de materiais."

Art. 3 Inserir o subitem 18.12.15.2 na Norma Regulamentadora n o 18 (NR-18) - Condições de Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção, com a seguinte redação:

"18.12.15.2 Quando da utilização de andaimes multidirecionais, o sistema de proteção contra quedas do tipo guarda corpos deve dispor de travessão superior entre 1,0m e 1,20m (um metro e um metro e vinte) de altura acima do estrado, travessão intermediário com distância de 0,50m (cinquenta centímetros) abaixo do travessão superior, e rodapé com altura mínima de 0,15m (quinze centímetros) rente à superfície."

Art. 4 0 Inserir no Glossário da Norma Regulamentadora n o 18 (NR-18) - Condições de Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção, a definição do termo "Andaime Multidirecional", na seguinte forma:

"ANDAIME MULTIDIRECIONAL: Sistema modular de acesso composto por montantes com rosetas fixas a intervalos regulares, que permitem a conexão de travessas e diagonais em diversos ângulos por meio de encaixe autobloqueante. E caracterizado pela capacidade de montagem em múltiplas direções, adaptando-se a geometrias complexas e dispensando o uso de acessórios de aperto manual, como braçadeiras ou parafusos, na sua estrutura principal."

Art. 50 Esta Portaria entra em vigor no prazo de 45 (quarenta e cinco) dias após a data de sua publicação.

LUIZ MARINHO

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